sexta-feira, 19 de junho de 2009

- Vidro

De repente um devaneio surgiu, com sabor de coisa gostosa, com vontade de satisfação. Tortura era não atender essa necessidade, saborear cada parte da história.Descobrir com mágica o lugar longe e seguro aonde as aves se escondem. Imagino esse lugar, cujo nome é Silêncio e tem um parque conhecido como Outono.
Quando as portas se abrem é possível ver o mar, é como se o reflexo tivesse som. Batia no mar e refletia no céu, alcançando a nota mais bonita do dia.
Porque lá cada dia tem sua própria nota.
O pouco completa a solidão, os olhos alcançam o segredo. Ninguém se esconde. Todos são livres e todos gozam da sensação de ser livre.
De repente um sonho surgiu, com extensão de infinito, com desejo de sempre. Bobagem era acordar e não ‘bomdiar’ a alma. Não viam importância no muito e se importavam com o demais. Havia uma ponte que diminuía a distância. Eram bom ter certas coisas mais próximas. Força e medo; riso e fome; solidão e paz. Qualquer pessoa que pela ponte passasse, sentiria. Inevitavelmente.
O mundo já não era o mesmo, a vida já não era a mesma. No fundo nada mudou, mas se o superficial muda, a mente também reconhece. E ninguém consegue viver de lembrança, ainda que houvesse uma lembrança diferente para cada novo dia.
No início o plano era perseguir a alegria, para qualquer lugar do mundo que ela fosse. Mas ela anda devagar e eu tenho pressa.
De repente uma sombra surgiu, com a claridade de fogo, com cor de gelo. Fraqueza era não vestir essa capa que me aquecia e me manteria aquecida até o fim da vida. Poderia fugir para qualquer canto, seria tão útil quanto tentar conter paixão. Não estava disposta a ser encontrada, nem agora e nem depois. Seu pensamento tinha a beleza de um arco-íris, por mais cinza que fosse.
Ouviu uma voz baixinha dizendo que o impacto faria mal.

Talvez se a voz fosse alta, ela tivesse dado ouvidos.

32 sentidos:

CátiaSofia disse...

Todos nós de vezes em quanto temos vontade de virar costas a tua, e afastarmo-nos um pouco do que nos rodeia, e sim isso faz com que a solidão, a tristeza e outras coisas ocupem um pouco de ti, mas tudo passa, porque isso não passa de uma acontecimente de passagem, muito curto.
Beijo
Adoro tua maneira de escrever,
muito linda:DDD

Bandys disse...

Ana,
Uma bela reflexão.

Beijo e um fds de muita paz.

marcella rarumi disse...

ando precisando (muito) de uma casa de cara pro mar. uns silêncios não me seriam tão ruins, creio. (aviso sim) bjs

caurosa disse...

Olá Ana, passei para uma visita e gostei muito de seu blog. Espero poder voltar mais vezes.

Paz e harmonia,

Forte abraço

CAurosa

Taw disse...

Entrei no seu texto, como sempre sem mapa e com a bússola apontando sempre para noroeste...

-.-

:-P

Nuno G. disse...

belo texto cheio de sugnificado e palavras bem escolhidas... vou voltar!

(www.minha-gaveta.blogspot.com)

ParadoXos disse...

Afinal já sabes respirar por telepatia, amiga! Senti essa bela respiração em cada frase tão bem inspirada!

Beijo imenso

entremares disse...

Porque estava a água tão azul ?

Abriu os braços e deixou-se ir. O fundo do oceano chamava-a, num murmúrio silencioso que mais ninguém, para além dela própria, ouvia. Talvez fosse só o rebentar das ondas nos recifes de coral, à superfície; ou o rolar das conchas no fundo de areia, empurradas pela corrente. Ou talvez não fosse nada.
Um silêncio imenso, azul, tomou-lhe o corpo, enquanto se afundava devagar, contemplando a superfície luminosa das águas a afastar-se, cada vez mais distante, mais distante...
Era uma forma de partir, tal como outra qualquer.
Era uma forma de desistir, de renunciar ao sofrimento, de dizer basta à doença, de aceitar... que nem sempre se pode vencer.
Soltou as últimas bolhas de ar que ainda conservava consigo e ficou a vê-las subir, rumo à superfície... enquanto ela se afundava mais e mais, para uma água cada vez mais azul, rumo à escuridão.
O médico dissera-lhe: mais seis meses... talvez um ano, se tiver sorte...
Não era justo.
Tanta coisa ainda por fazer... tantos projectos inacabados... tantos sonhos por cumprir... e uma doença, seis meses de vida, talvez um ano? Se tivesse sorte?
Não era justo.
Mas a vida não tinha que ser forçosamente justa, pensou. Sentira as primeiras dores no mês anterior, e depressa compreendeu o que a esperava, nos tempos seguintes.
As dores repetiram-se, aumentaram de intensidade. O médico também a avisara disso. O próximo passo seria a cirurgia, a amputação, e depois... nem ela sabia o que seria o depois.
A falta de ar apertou-lhe o peito.
À sua volta, um bando de peixes coloridos parecia intrigado, pela presença daquele corpo inerte, afundando-se vagarosamente no oceano.
A vista turvou-se, misturando formas e cores numa aguarela confusa.
Deixou-se ir.

Algo a tocou. Abriu os olhos.
O que era aquilo?
Uma tartaruga? Nunca estivera assim tão perto de uma...
Passou-lhe a mão pela carapaça, lisa e escorregadia. Ela devolveu-lhe o gesto, debicando-lhe o braço frio. Só então reparou, quando a viu afastar-se.
O pobre animal já sofrera no corpo a investida de algum caçador, faltava-lhe um dos membros inferiores. Nadava desajeitada, em sucessivas curvas, mais devagar do que seria normal... mas mesmo assim, sobrevivera, e ainda continuava viva, nadando...
Ficou a vê-la afastar-se, rodeada por um séquito de pequenos peixes, como se de uma autêntica corte se tratasse.

Contemplou novamente a superfície esbranquiçada das águas, cada vez mais longínqua.
Valeria a pena?

Não sabia.
Sabia simplesmente que... tinha que tentar.
Abriu os braços e apontou à superfície. Podia já não ter ar suficiente... mas valia a pena tentar...

Valentina disse...

Adorei suas metáforas!!!!
Inteligentes e sensíveis.
Bjs

tossan disse...

Notei um sentimento profundo o texto bem escrito! Gostei! Beijo

Luan disse...

Ju... saudades de você!
espero que lembres de mim

Melanie Brown disse...

Fico contente em ti falar que tuuudo é verdade, até a ultima virgula!Tenho rascunhos de "contos", que gostaria de postar, coisas da minha cabeça, inventadas sem motivos, mas na hora axo meio bobo sabe?!Como eu coloquei o nome do blog, "meio sem pensar", na pressa pra ativá-lo,ali so tem palavras de coisas vividas, escrevo no bog,SEMPRE QUE PENSO, rs.Bom, provavelmente nao nos conheceremos pessoalmente, mas o virtual funciona bastante pra mim!! :D, vou começar seguindo aki.Beijossssssssss e muito obrigada pelo comentario! :)

Mari Barros disse...

São coisas bem lindas que vc escreve, tão profudo que faz nos pensar tb.

Obrigada pelo elogio!

Daniela Filipini disse...

Eu adoro o seu modo de escrever :)
"E ninguém consegue viver de lembrança, ainda que houvesse uma lembrança diferente para cada novo dia." Adorei isso!
Lindo mesmo!

Andrea de Lima disse...

o começo me fez lembrar de Passárgada. e o final me fez querer que a história tenha uma continuação! adorei! até mais ler.

Quem é ela? disse...

"Havia uma ponte que diminuía a distância. Eram bom ter certas coisas mais próximas. Força e medo; riso e fome; solidão e paz. Qualquer pessoa que pela ponte passasse, sentiria. Inevitavelmente."

Gostei, fiz um ótimo passeio pelo seu blog.Minha imaginação foi longe.

:)

Muitas palavras disse...

Sutileza e solidão nas tuas palavras. Um poema que adoro, para leres, minha querida, de Emily Dickison:

Dentre todas as Almas já criadas

Dentre todas as Almas já criadas -
Uma - foi minha escolha -
Quando Alma e Essência - se esvaírem -
E a Mentira - se for -

Quando o que é - e o que já foi - ao lado -
Intrínsecos - ficarem -
E o Drama efêmero do corpo -
Como Areia - escoar -

Quando as Fidalgas Faces se mostrarem -
E a Neblina - fundir-se -
Eis - entre as lápides de Barro -
O Átomo que eu quis!

(Tradução: José Lira)
Emily Dickinson

Amélie disse...

Tão verdadeiro que cheguei a pensar que eu já tivesse passado pelo mesmo lugar...
mil bjuxx!!!!

Vinicius disse...

hahah eu detesto voz baixinha rsrs

Jaya disse...

Eu fico quietinha, hoje. Catei um monte de letras saborosas. Provo na minha reserva. Doce.

Beijo, linda.

Pelos caminhos da vida. disse...

TEM SELINHO LÁ PRA VC.

BEIJOOO

- eeeeeii disse...

quero uma lembrança diferente pra cada novo dia, porque as mesmas me consomem. Por favor (:


- ótimo texto!

luctoller disse...

Lindo texto... aliás, alguns dos teus textos dá vontade de colocar no perfil do orkut.

Beijo grande.

Bill Falcão disse...

Um lugar chamado Silêncio, com um parque conhecido como Outono, só pode ser mesmo um belo lugar, Ana, criado por sua mente muito poética!
Bjoooooooooo!!!

disse...

Gosto muito, muito mesmo $:
Beijinho :')

lapisderomova disse...

os tons do outono, o renovar das folhas, o silêncio...

uma melancolia necessária.

O Profeta disse...

Haverá?! Há sempre uma deusa perdida
Nos labirintos da contradição
Há sempre alguém que usa a palavra amor
Soprando doce veneno ao coração
Há sempre alguém que nos diz coisas tontas
Há sempre alguém que afugenta a Saudade
Há sempre alguém que nos marca a ferro frio
Há sempre uma alma ausente da verdade

Boa semana


Doce beijo

Luifel disse...

Ana, enfim eu estou voltando...

Gosto do seu modo de escrever... é meio que saudoso, mescla de algo que passou com algo que acontece...

Ao contrário do amigo ali acima, adoro uma voz baixinha no ouvido, se for de mulher, melhor ainda...hehe

Bjo.

Fernanda Magalhães disse...

Que delicia de texto!

Perfeito! Perfeito!


Bjos!

Taw disse...

Olha... vc é uma artista. O que vc faz é fascinante.

Eu sou seu fã.

que DEUS seja com você, Ju!!! Em nome de JESUS, o CRISTO, Amém.

[esse é um desejo que tecnicamente é um pedido.]

Andréia disse...

esse é o nosso problema, não esperamos o aviso e sim o berro mas nem precisa pq a msg é clara


beijossssss

Jac C. disse...

Oi, vim te retribuir a visita que me fez em 18/03.
Tardo mas não falho...rs
Temos em comum o Thiago (por sinal preciso passar por lá).
Está linda a sua foto do perfil

bjs.
Jac